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Sítio do Cinturão Verde de São Paulo ensina arte de plantar e prosperar

Com o terreno repleto de faixas de hortaliças em vários tons, o Sítio Horta e Flor é quase um reduto no bairro de Tijuco Preto, em Caucaia do Alto, onde o crescimento urbano e os cultivos convencionais avançam sobre o Cinturão Verde de São Paulo. Seu proprietário, o agricultor João Evangelista dos Santos conseguiu fazer da terra um modelo de prosperidade agrícola, em que a agricultura familiar é movida por um firme propósito pessoal, além do aprendizado permanente com os processos naturais.

Seu protagonismo e o da esposa Jandira dos Santos refletem em efeitos positivos a toda população, cuidando da água e da mata, da produção de alimento saudável e do bem-estar humano em geral, e acima de tudo, fazendo frente aos desafios que se impõem ao trabalho diário na pequena propriedade.

Foram 15 anos de esforço até conseguirem adquirir a terra, sem acesso aos programas oficiais de financiamento e buscando sempre economizar parte dos ganhos da produção, assim como os efeitos da mudança no clima da região que costumam destruir dias de cultivo, enfrentados com a persistência do trabalho de toda família e o foco em seu projeto maior na terra.

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As mais de 50 variedades de hortaliças do sítio, algumas menos convencionais como o radicchio ou o dente-de-leão, seguem toda semana para a Feira da AAO no Parque da Água, em São Paulo, e já contam com os consumidores garantidos dos alimentos orgânicos. Prática que, aliás, era realizada por ele antes mesmo da agricultura orgânica receber este nome, em um sistema natural muito mais amplo do que a rejeição aos agrotóxicos. Por essa visão, a agricultura orgânica compreende a propriedade como um sistema vivo, da qual o agricultor é apenas um de seus elos, resgatando o verdadeiro valor do trabalho no campo.

No facão e na enxada

Semear e colher é um trabalho constante, respeitando-se o tempo de cada cultura, pois se uma hortaliça como a rúcula leva só 10 dias para formar a
muda, a couve precisa de cerca de 45 dias, e o alho-poró pode chegar a 50 dias, ensina Seu João Flores. O apelido nasceu de sua dedicação ao plantio de flores em Cotia (SP), assim que chegou de Minas Gerais, vindo de família tradicional de agricultores.

Foram anos vendendo flores no Ceasa, até a crise ameaçar a atividade na década de 1970, e ele iniciar a venda de caldo de cana em entrepostos em Cotia, complementada pelas belas folhagens que “cortava no mato” e vendia direto aos entregadores. Foi um desses clientes que o ensinou a plantar pinheiros de Natal, os quais garantiram a renda por muitos anos e o “aluguel” do terreno que descobriram então em Caucaia do Alto.

“Fui juntando economias esses anos todos, pois o objetivo sempre foi ter terra própria. Plantávamos o dia todo, a perna ficava inchada… chegávamos a cozinhar com água do rio… aqui era só mato, não tinha estrada, era preciso abrir a picada no facão e fazer todo o trabalho na enxada”, vai relembrando.

Com a venda de sua Kombi e parte da economia da comercialização dos produtos, ele e a esposa compraram recentemente o terreno do Sítio Horta e Flor, conquistando o ideal de permanecer na terra. “Foi muito difícil, aqui não tinha casa então andávamos 4 quilômetros todos os dias para chegar, e ainda trazendo a filha pequena”, conta Jandira. Hoje as duas filhas possuem envolvimento com a agricultura, uma atuando na feira do Parque da Água Branca e outra no projeto de venda de orgânicos por delivery com seu marido.

Segundo Seu João Flores, a satisfação é crescente “pois quanto mais se pode plantar e vender na feira, mais aumenta a relação de confiança com as pessoas”. Foi um dos vizinhos do sítio quem o aproximou da AAO: juntos vendiam produtos no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, até que Sérgio Pedini, membro da associação, convidou o agricultor para uma barraca fixa no Parque da Água Branca.

“No começo levava pouca coisa, lembro que no verão o produto dos outros acabava aí vinham buscar na minha barraca, fui aumentando, ficando conhecido, pegando coragem e hoje sei que precisamos daquele espaço. Mas brinco que a responsabilidade é maior também, quem está há muito tempo na feira não pode perder credibilidade, o público acredita no nome da AAO”.

A certificadora exige o manejo correto da área e a listagem atualizada das espécies plantadas, conhecida como ‘romaneio’, que pode ser exigida pelos clientes da feira. Há sempre o registro do cultivo de novas plantas, como a rúcula selvática ou o nabo curto, e o trato da lavoura precisa ser sempre natural: são quase 600 sacos de composto orgânico por mês e a retirada manual dos milhares de formigueiros que surgem principalmente a partir de setembro.

Saberes combinados

A horta orgânica só faz crescer a vida no solo e o potencial das plantas, as depende sempre de um amplo investimento em insumos, adubação verde e mão-de- obra especializada no cultivo, a exemplo do funcionário que a família investe para apoiar na produção. Os ganhos vão do crescimento e qualidade dos alimentos até o retorno da biodiversidade local.

“Na agricultura convencional, a vida no solo vai acabando, pois as plantas não comem terra e sim as substâncias deixadas pelos microrganismos, há milhares de bichos dentro do solo”, ensina Seu João Flores, contando sobre a diversidade de animais que também são observados no plantio: macacos, teiús, jacus, quero-queros, além das joaninhas, borboletas e diferentes tipos de inseto.

Boa parte do sucesso da horta está na combinação entre diferentes espécies, conhecidas como companheiras no campo. A rúcula e a salsa vão juntas no canteiro, pois a primeira é logo colhida enquanto a segunda cresce, assim como a alface e a couve, o coentro e a beterraba. “Quando as folhas cobrem, a outra ainda está nascendo, cabe tudo na terra e, com isso, aumenta a quantidade do que é produzido, que seria menor com uma só espécie”, revela.

E como faziam os povos tradicionais nas roças, uma cultura vai dando lugar a outra, a terra é sempre renovada com usos diferentes: primeiro a alface, depois a adubação verde com aveia-preta ou crotalária por alguns meses, e então o agrião e o espinafre. “Roda a cultura e segue a estação do ano, no inverno faz adubação verde com ervilhaca, no verão vai feijão-de- porco ou girassol”, conta Seu João.

E finalmente, o segredo da vida vegetal revela-se na forma de irrigar o solo, em que a água vai escoando sobre a superfície da terra sem encharcar a raiz das hortaliças. Segundo ele, é possível saber a quantidade certa de água notando o brilho das plantas no canteiro. E o resultado do trabalho vai se comprovando com a percepção atenta aos princípios que regem a natureza no campo.

(texto produzido para a AAO – Associação de Agricultura Orgânica)