flor maracujá

Descobridor de PANCs revela riqueza das comidas que vêm do mato

Há uma infinidade de espécies na natureza à disposição do ser humano para alimentação, equilíbrio da saúde, beleza e diversas funções essenciais, mas hoje esquecidas nos quintais das casas ou nas ruas das grandes cidades.

Muitas plantas chamadas de daninhas e ignoradas pela população, começam a ser redescobertas por sua riqueza como comida e pelo valor cultural de uma região. O caminho para o conhecimento dessas plantas alimentícias não-convencionais, as PANCs, vai além da simples classificação botânica, devendo-se mais à vivência prática na relação com cada planta, que se torna única mesmo considerada da mesma espécie.

Nesse processo de descoberta, a atenção aos detalhes individuais tem feito curiosos como o produtor José Carlos Gonçalves a identificar dezenas de PANCs em pequenas áreas do Cinturão Verde de São Paulo. Caruru, beldroega, pariparoba, guanxuma, maracujá-de-macaco, assa-peixe, mangarito… são algumas das plantas pesquisadas no seu sítio em Ibiúna, cujos cultivos tornam-se a cada dia mais diversificados.

“Estamos andando em cima de comida, costumamos prestar atenção somente nas espécies conhecidas, como alface e tomate, mas se olharmos para a natureza é fácil perceber que nada é mato. Cada planta tem uma função, muitos animais sobrevivem delas, enquanto nós selecionamos o que comemos e vamos perdendo variedades de muitas sementes. A ideia é ir redescobrindo aquilo que fomos esquecendo”, explica Zé Carlos.

Se na área do Sítio Gonçalves, com 2,7 hectares de terra, ele já identificou 57 PANCs misturadas aos cultivos de hortaliças convencionais, o esforço agora é buscar a certificação orgânica dessas plantas. Produtor da Feira de Orgânicos da AAO no Parque da Água Branca, sua barraca vende repolhos, abóboras, feijão, quiabo, mas costuma atrair pelos produtos não-convencionais e o tornar reconhecido como o “Zé Carlos das PANCs”.

Um pouco de história

IMG_0166

Zé Carlos chegou à propriedade há 30 anos, para viver com a esposa Ivani, e trouxe na bagagem a experiência com agricultura orgânica da família, que sempre trabalhou na roça, no interior de Minas Gerais. “A nomenclatura ‘orgânico’ é algo novo, mostrando que o produto não tem defensivo agrícola. Mas sempre existiu para os mais velhos, para quem sempre cultivou de forma natural, seguindo a necessidade de cada cultura, algumas precisavam de adubo como o milho, outras nem isso, como o feijão e arroz”, revela.

Antes de iniciar a certificação para comercializar na Feira da AAO – Associação de Agricultura Orgânica, ele montava e vendia cestas de hortaliças para alunos e professores da USP – Universidade de São Paulo, ainda na década de 1980. Só mais tarde, associou-se à Horta e Arte, que revendia a mercadoria de pequenos produtores mas exercia forte controle sobre sua produção, e depois foi um dos fundadores da associação APOIE para fortalecer a produção orgânica em Ibiúna.

Muitos produtores convencionais migraram para os orgânicos nesta época, mas poucos agricultores familiares permaneceram, conforme esperavam grandes ganhos que não costumam vir rápido. “Digo que os produtores acostumados com adubo químico têm dificuldade de se adaptar, pois para ser agricultor orgânico precisa ter a mente orgânica”, brinca Zé Carlos.

Foi um membro da associação quem o incentivou a se inscrever na Feira da AAO, onde os produtores assumem o compromisso de ter um mix de produtos próprios certificados na barraca. “Nunca sobrou produto, mas preciso registrar mais PANCs para oferecer aos clientes. Muitos vão à feira só para comprar as espécies não-convencionais na barraca”, conta.

Conhecendo as PANCs

No campo, o contato com as novas plantas começa como um namoro, em que ele observa o que tem na “porta de casa”, o mato que nasce espontaneamente na lavoura e até mesmo na beira da estrada. Nesse processo, avalia as espécies pelo visual, mas também pelo cheiro e, quando possível, testa direto o paladar.

“O gosto do cipó-d’alho é bom para patê, o pau-jacaré serve para fazer chá, a corda-de-viola para a culinária”, vai mostrando. “Quando não sei o nome, sinto o cheiro, sou curioso e muitas coloco na boca. Algumas não vou com a cara, aí o próprio organismo rejeita”.

É possível encontrar uma centena de espécies misturadas na lavoura, a exemplo da combinação de nabisco, cana, espinafre e manjericão, ou almeirão, erva-doce e physalis, e ainda salsinha, serralha e língua-de-vaca. Esta cara de aglomerado espontâneo é justamente a “marca” da horta do Sítio Gonçalves, sendo inclusive a principal estratégia contra pragas e insetos, pois segundo Zé Carlos, “em uma horta com mato, as formigas comem só um pouco de cada espécie, deixando as outras para eu vender”.

Ele se esforça para aproveitar ao máximo o que cresce espontaneamente, como a pimenta-de-passarinho, que deve ser colhida cedo antes das aves virem se alimentar, ou as folhas de pariparoba que crescem no sub-bosque da mata local e têm importantes propriedades para o fígado. Ainda assim, vem é preciso agrupar cada vez mais as espécies para facilitar a mão-de-obra, composta por ele e um ajudante, “pois a colheita das PANCs é difícil, tem que selecionar com o olho as melhores, com boa textura e um certo padrão”.

Aos domingos, na Feira do Parque da Água Branca, é possível encontrar até 30 variedades em sua barraca, e o intercâmbio com alguns clientes tem enriquecido esse conhecimento. Um deles levou um pedaço de cana-do-brejo, que Zé Carlos plantou no sítio, e outros já levaram folhas de outras plantas para ele identificar.

“Não tento convencer ninguém, se perguntam para que serve vou explicando, e vendo as PANCs como alimento não como remédio. Mesmo sabendo que elas nutrem mais que outras espécies comerciais e são muito intensas”, finaliza.

(texto produzido para a AAO – Associação de Agricultura Orgânica)

Veja mais fotos: