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Caraguatá e Cambuci mantêm viva cultura caipira em Paraibuna

O amplo panorama da Serra do Mar Paulista permite notar densas áreas de floresta recortadas por campos descobertos. Na transição entre esses dois ambientes, surgem plantas que logo atraem a atenção, como uma enorme bromélia de quase 1 metro e meio de altura, crescendo direto no chão, com longas folhas espinhosas e serrilhadas.

Ao contrário das delicadas bromélias da mata, o Caraguatá nasce no campo cerrado, em condições de muito calor, sobrevivendo em solos secos e até sobre rochas. A dureza da aparência é quebrada pela beleza dos frutos amarelos que brilham no meio da planta e despertam pela suavidade e por seu perfume disfarçado.

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Para quem desce rumo à Caraguatatuba, a influência dessa planta nativa é confirmada no nome da cidade e em toda a cultura da região. No Alto da Serra, em Paraibuna, o Caraguatá ou Gravatá se faz presente em receitas e histórias que mantêm viva a memória local. Como muitas plantas esquecidas em grandes cidades, suas qualidades são reveladas pelas mãos de produtores locais, muitos descendentes de famílias que há séculos chegaram e ocuparam a região. E nesse saber sobre a utilização das plantas, os produtores mostram que os sistemas tradicionais de manejo contribuem com a biodiversidade, impedindo a degradação da natureza ao longo de anos de exploração.

Cachaça, xarope e rapadura

O alambique do Sítio JJ, na zona rural de Paraibuna, é a fonte de uma variedade de receitas artesanais que trazem a marca de sua identidade regional. A bebida produzida ali se transforma em cachaça curtida com xarope de Caraguatá e no Cambuci, licor de Jabuticaba, além da Cana virar açúcar mascavo, melado e a tradicional rapadura 100% artesanal, a qual tem enriquecido a merenda das escolas de Jambeiro e Paraibuna.

O produtor José Joaquim Ramos de Almeida, o Jotinha, e a companheira Maria Neide de Souza, já são conhecidos pela Pinga Jotinha ou as cachaças Marvada Neide, que levam meses de preparo antes de chegar ao comércio. Mas é a própria história pessoal de Jotinha, descendente da primeira família mineira a ocupar a região, em 1915, com uma fazenda de 1,1 mil alqueires, que revela mais sobre o papel da atividade rural na recuperação da paisagem natural.

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“O caminho de dedicação à terra foi longo, herdei uma pequena parte da fazenda mas acabei estudando engenharia civil em São Paulo. Aos poucos, fui voltando nos finais de semana, comecei a emendar a segunda, terça, fui reformando a área, até decidir ficar. Por ser um terreno acidentado e montanhoso, a ideia foi plantar Cana nas partes mais planas, com a finalidade de produzir cachaça. Aí começou também o plantio de árvores frutíferas…”, conta Jotinha.

Com 15 nascentes, sua área abastece o ribeirão Fartura, formador da bacia do Paraibuna, e a propriedade foi uma das beneficiadas do Programa de Recuperação de Matas Ciliares, do governo do Estado de São Paulo, por seu papel estratégico na conservação da água. Mais de 12 mil mudas de árvores nativas foram plantadas na fazenda por meio do programa, entre 2007 e 2010, e hoje ele comemora hoje a visão da mata se fechando às margens dos 1,1 quilômetros de rio que corre na propriedade.

Além das espécies madeireiras, boa parte eram frutíferas originais da Mata Atlântica, atraindo passarinhos e outros animais que trouxeram a biodiversidade de volta à fazenda.

“A mata vai voltando sozinha, não precisa mexer, mas posso usar as espécies frutíferas como o Cambuci, sem degradar a natureza. Mantenho a Cana, pois digo que também é uma espécie ‘abençoada’, durante o frio está no auge da produção, serve de alimento aos animais e ainda uso o bagaço com esterco para fazer composto”, diz.

A produção de cachaça artesanal unida ao paladar das frutas nativas foi o caminho natural de investimento, com base numa nova economia que valoriza os recursos típicos e genuínos de sua região.

Tempo certo e colheita delicada

Ainda jovem, era comum ao produtor entrar na mata e observar a concentração de pés de Cambuci silvestres ao longo das trilhas locais, assim como guarda a memória do bar do “alemão”, Alexander Linz, que foi o primeiro produtor de xarope de Paraibuna com o fruto brasileiro, na antiga estrada dos Tamoios. Segundo ele, espécies como o Caraguatá e o Cambuci conservados no xarope são parte da cultura local, mas só há pouco tempo vêm sendo valorizados.

Os Caraguatás, por exemplo, eram plantados pelos antigos nas divisas das propriedades para impedir a passagem do gado, devido a seu tamanho e espinhos dolorosos. “Foi no evento Revelando São Paulo, há vários anos, que provei a bebida de um senhor, com xarope de Caraguatá, limão espremido, mel e cachaça, fui percebendo o potencial e o sabor do fruto, aí comecei a testar”, lembra Jotinha.

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Junto com a esposa Neide, criaram a marca Marvada Neide, sucesso nas festas da cidade e nos festivais do Cambuci. Um único pé do fruto no quintal da casa de Neide se transforma em até 500 litros de cachaça, “após oito meses curtindo nas bombonas, pois tem coisa que demora, tem o tempo certo e só pode ser feita com cachaça de qualidade”.

A delicadeza da produção é a mesma com o Caraguatá: produtores locais colhem as bagas do fruto entre abril e julho, o qual precisa ser cozido com açúcar e depois amassado para quebrar as fibras. Depois de vários dias é filtrado e só então apurado na panela com açúcar, dando origem ao xarope. Este é vendido em pequenos frascos, sendo excelente remédio para os brônquios.

“Há muita gente querendo trabalhar com o Cambuci e os frutos nativos, porém há muitos conhecimentos tradicionais a serem passados, o jeito certo de colher, sempre no chão, o uso correto das diferentes variedades, cada uma tem um sabor e muda de acordo com a região”, explica Jotinha.