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Frutas orgânicas são trabalho delicado nas mãos de descendentes italianos em Jundiaí

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A fragilidade das uvas faz desse um dos cultivos mais difíceis de serem trabalhados, dependendo muito do clima e do local, da melhor variedade de uva e do jeito certo de trata-la, o que leva a produtora Nereide Basso a comparar a uva com uma mulher, em que “os pés têm o tempo certo para tudo”. Da experiência com as videiras, abriu-se um mundo de conhecimentos para sua família em Jundiaí, que converteu a terra em um espaço de desenvolvimento de frutas sem veneno, cultivadas com saúde e respeito à natureza local.

Figo roxo, ameixa centenária, pêssego, caqui, ponkan, lima da pérsia, laranjas pera, rio, natal e valencia, araçá, jabuticaba… nas mãos do produtor João Fontes Basso, o cultivo dessas variedades vem se revelando um trabalho delicado e pioneiro no cenário das frutas orgânicas no país.IMG_7529

A dificuldade em se encontrar frutas certificadas deve-se à forma de compra pelos mercados, que exigem grandes lotes dos produtores, e à busca do consumidor por padronização e disponibilidade de frutas o ano todo, o que só é possível na agricultura convencional, com o uso de substâncias artificiais.

Neste caso, a venda em feiras orgânicas torna-se o caminho natural, e para os produtores de Jundiaí, as uvas abriram as portas para a entrada na Feira Orgânica do Parque da Água Branca, quando puderam acessar novos consumidores. Seu conhecimento remete à tradição do trabalho com as uvas no norte da Itália, terra natal da família de Seu João.

IMG_7551As peculiaridades do plantio de frutas orgânicas são tantas que o simples formato do enxerto em pés de laranja, pode comprometer toda a qualidade da safra. “Perdemos cerca de 300 pés, até descobrir um especialista em enxertia e reinvestir em novas mudas, as quais levarão mais 3 anos para começar a produzir. Trabalhar com frutas é um investimento permanente, cada espécie leva um tempo para se formar, o que é diferente das hortaliças que dão o ano todo”, reforça.

Da mesma forma, foram anos para descobrir o tecido certo usado nos saquinhos que cobrem os pêssegos e ameixas nos pés, os quais são atacados por moscas que põem ovos nas frutas. “Deitava e acordava pensando como dominar as moscas, testei várias técnicas até achar os sacos de TNT que permitem os frutos respirarem. Vamos formando aos poucos nosso próprio pomar”, ensina Seu João.

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Saga familiar

Por trás do alimento produzido hoje, revela-se a história de imigração de seus avós, que chegaram a trazer “mudas de plantas dentro da mala no navio”, tendo sido pioneiros na formação da variedade de uva Isabel na região de Jundiaí. Ainda na década de 1920, os frutos eram levados em carroças de burro para a estação de trem, de onde viajavam até o Mercadão na rua da Cantareira.

Com a chegada dos caminhões, o ritmo de trabalho tornou-se mais pesado: as uvas eram colhidas pela família ainda cedo, embaladas em caixas de madeira e papel, seguindo à noite para São Paulo e só vendidas no dia seguinte no Mercadão. “Enchíamos um caminhão de uva do nosso sítio, repetíamos a rotina de segunda a sábado, por cerca de 25 anos, até meados dos anos 1960”, conta o produtor.

IMG_7512Aos poucos, seu pai introduziu novas espécies no campo, como o pêssego, o marmelo e o tomate, que passou a ser vendido para a marca Cica, e ampliou-se o número de meeiros atuando na produção. Foram então décadas de venda no Ceagesp de São Paulo, entre os anos 1970 até quase o ano 2000, quando se tornaram testemunhas da entrada dos agroquímicos na plantação e vivenciaram todos os efeitos desse novo modelo no campo.

“Chegamos a ter 45 mil pés de uvas e até os anos 1960, só usávamos esterco de gado, farinha de osso e a mistura de cal virgem com sulfato de cobre que compunha a ‘calda bordalesa’. Aí os vendedores de adubo químico chegaram, passamos a comprar o pacote de insumos, e por cerca de dez anos fomos vendo a produção diminuir, a terra ir ficando ácida… precisávamos ir comprar calcário em Piracicaba quase todo mês”, revela Seu João.

IMG_7586Foram os problemas de saúde que o levaram a decidir por um novo tipo de agricultura, que significou voltar aos saberes de seus pais e ao verdadeiro papel do agricultor na produção. “Tinha com irritação nos olhos e na garganta, dores nos braços e nas costas, na consulta médica lembro que mostrei a embalagem de agrotóxico que estava usando e ele falou ‘a solução é voltar para a agricultura sem veneno’”, reforça.

Novas gerações, novas descobertas

Nos anos 1990, o casal Nereide e João participou de um importante evento no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em que tomou contato com o debate sobre a produção orgânica por meio de nomes como José Lutzemberg e Sebatião Pinheiro, “descobrindo o conhecimento científico sobre a percepção que já tinham das práticas naturais e orgânicas”.

Segundo Nereide, esta visão sempre fez parte do seu dia a dia, em que “o olho do dono e o contato com a terra determinam a qualidade da cultura”, mas houve um reconhecimento das técnicas usadas no sítio, como a calda bordalesa, e Seu João passou a especializar-se na agricultura orgânica, em cursos como o da ANC – Associação de Agricultura Natural de Campinas.

Com isso, ampliaram-se as oportunidades de comercialização dos orgânicos, tanto em lojas de nicho como Mundo Verde, Alternativa Casa do Natural, e em supermercados como a Casa Santa Luzia e mesmo o Pão de Açúcar. A diversidade de itens do sítio já havia aumentado, incluindo mais hortaliças como repolho, couve-flor e vagem, os quais chegaram a produzir até 1 tonelada por semana para os supermercados. “Mas a concorrência aumentou, já não compensava o esforço para entregar em redes grandes”, conta Seu João.

O caminho natural foi conhecer a Feira do Parque da Água Branca, onde conquistou espaço e adquiriu a certificação própria da AAO – Associação de Agricultura Orgânica. Aos poucos, ele ampliou a dimensão da barraca na feira, onde já está há 14 anos, enfatizando que o desejo sempre foi fazer a venda direta, sem intermediários.

IMG_7577A diversificação dos produtos orgânicos também vem crescendo pelas mãos do filho Carlos Miguel, que voltou para a terra dos pais, e além de introduzir o feijão, o quiabo ou a abobrinha, expandiu o cultivo para uma nova aventura, do plantio de milho orgânico certificado. Trata-se de um trabalho desafiador, com poucas sementes no mercado hoje dominado pelo milho transgênico, o qual já ocupa cinco hectares do sítio com uma variedade rústica adquirida na CATI.

“O esforço de adubar, debulhar o milho e secar é trabalhoso, mas é uma satisfação saber que ele está alimentando galinhas que produzem ovos orgânicos, do granjeiro para quem vendemos. Aí tudo se encaixa!”, finaliza Seu João.

(matéria realizada para a AAO – Associação de Agricultura Orgânica)