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Rainha do Sertão e Uruçu de Chão despontam entre os raros méis do mundo

Informações e imagens – Ana Cecília Bruni. Texto – Heloisa Bio

 

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A imagem de casas de abelhas de vários países do mundo dominou a cena no Terra Madre, maior encontro do movimento Slow Food, que aconteceu na última semana de setembro, na Itália, encantando a todos com a diversidade de colmeias existentes no planeta. O público deslumbrou-se com as cores e aromas dos méis e, ao final, eles compuseram uma pirâmide de 1 mil potes que simbolizou sua importância.

A homenagem reafirmou o valor das abelhas nativas para a biodiversidade e o trabalho de resgate dos enxames que vem se dando em vários continentes. As causas do desaparecimento das abelhas são inúmeras, indo da retirada das colônias de seu habitat natural ou introdução de abelhas exóticas que extinguem as nativas, até a pulverização de agentes químicos nas lavouras que exterminam boa parte dos seres voadores.

Existem mais de 400 espécies nativas no Brasil e sua importância é reforçada pela polinização de 80 a 90% das plantas brasileiras, ou seja, seu desaparecimento implica na extinção de boa parte da flora do país e de toda a fauna que depende dessas espécies vegetais.

A criação de abelhas nativas torna-se, assim, um caminho para a conservação de ecossistemas unida ao desenvolvimento de pequenos agricultores, além de estar intimamente ligada aos costumes sertanejos no Brasil, especialmente no Cerrado e na Caatinga.

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Um exemplo diferenciado vem dos meliponicultores da cidade de Exu, em Pernambuco, que passaram a extrair o mel da abelha Uruçu de Chão de forma sustentável, mostrando caminhos para as comunidades da Chapada do Araripe, de onde ela é endêmica.

O mais curioso tem sido a técnica de extração para evitar seu desaparecimento, pois como os ninhos da Uruçu do Chão são feitos direto no solo, em buracos de formigueiro ou em raízes mortas, os “meleiros” predatórios costumam colher o mel e dispensar os enxames, levando à morte a família de abelhas.

Agora, a técnica desenvolvida pela Associação Cristã de Base do Crato (Ceará) e a organização Agrodoia, de Exu, vem permitindo manter as famílias de abelhas inteiras: panelas de barro são semi enterradas no chão e a colheita do mel é processada ali mesmo pelos produtores, por meio de um processo delicado em que a terra não se mistura ao mel.

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Vilmar Lerman, da Agrodoia, de Exu (PE)
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Panela de barro para produção de mel no chão

O esforço compensa o resultado, pois o mel da Uruçu do Chão é medicinal e tem seus usos tradicionais ligados ao tratamento de tosse, dor de ouvido e conjuntivite. É ela também quem poliniza diversas espécies da Caatinga.

Já no Rio Grande do Norte, a relevância da abelha Jandaíra deu nome à cidade e a extração de mel influenciou a formação da cultura local, quando tropeiros vinham do sertão rumo ao litoral e consumiam seu mel produzido nos troncos das árvores.

No entanto, a espécie nativa encontra-se em risco de extinção devido à compra dos enxames por outras regiões e à exploração intensiva e insustentável. Lá, a Associação dos Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço (JOCA), passou a trabalhar a meliponicultura associada à valorização da história e identidade do município, a partir de um recurso natural que só ele possui.

Conhecida como Rainha do Sertão, a Jandaíra é responsável pela polinização de boa parte das plantas da região e, como lembram os representantes da associação, para cada espécie de abelha extinta, dez espécies da flora local desaparecem imediatamente.

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