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Arte mítica de Marlene Crespo chega a escolas e grandes exposições

Aos 85 anos, a artista plástica e também poeta Marlene Crespo comemora o diálogo de sua extensa obra com os diversos meios culturais atuais, pondo em relevo o universo mítico que compõe a identidade brasileira.

Fazem parte da criação da artista figuras, animais e seres da temática popular, em expressão direta de seu papel artístico como uma das importantes representantes da gravura no país. O diálogo entre a obra e seu tempo configura-se como independente de habituais modismos.

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E seu trabalho, usualmente exposto em galerias e outros meios culturais, é agora apresentado a novos públicos, como o das escolas públicas e o da Bienal Naif, em cartaz no Sesc Belenzinho, em São Paulo, até julho.

É no simbolismo dos mitos brasileiros que se manifesta mais fortemente a essência desse trabalho artístico, nos revelando o quanto a simplicidade pode atingir sentidos profundos. Segundo o crítico Paulo Cheida Sans, os seres são por um olhar quase infantil, dando ao trabalho de Marlene Crespo um ar poético e irreal que aponta para um caminho cheio de fantasia e de camadas profundas da realidade.

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Livro é veículo de ideias

O papel do ser encantado protegendo a mata e os seres que nela habitam está no livro “Curupira – o guardião da floresta”, publicado pela editora Peirópolis, em 2012, com ilustrações e textos da artista. Em 2014, o livro foi selecionado pelo Programa Nacional do Livro Didático, para destinação às escolas públicas. Em 2017, cerca de 100 mil exemplares chegam aos alunos do 1º ao 3º ano do ensino fundamental em todo o país.  (PNAIC)

“Curupira – o guardião da floresta” é parte de uma trilogia composta por “Saci – o espírito da selva” e “Iemanjá – a deusa do mar”, respectivamente, de 1999 e 2002, focados nos mitos de transformação da vida e sua relação com os meios naturais. Foi preciso pesquisar as lendas para só então dar origem às imagens dos seres e animais, enquanto o texto parece apoiar o universo visual apresentado.

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“O livro não foi feito pensando na criança, pois vem do trabalho autêntico da artista com a xilogravura. Durante a leitura, sentimos que estamos desfrutando a exposição dela em uma galeria, os textos são criados quase como legenda para as imagens. A apresentação com muitos espaços em branco privilegia a técnica visual e o livro nos dá a sensação que é uma moldura para a obra”, expressa Renata Farhat Borges, diretora da Peirópolis.

O caminho menos comum para se falar sobre o Curupira surge como uma forma de levar a cultura às crianças sem um filtro simplista. “Surpreende que esse Curupira não tenha nada de afetivo como nas lendas convencionais, aqui ele é artístico e literal”, reforça Renata.

Trata-se de uma escolha que permite ao livro chegar mais longe, fazendo com que seja usado nas escolas como grande veículo de ideias. E com isso, apresentar uma artista brasileira cuja técnica faz parte de nossa cultura visual.

Ao contrário da compra para o acervo da biblioteca das escolas, neste caso “Curupira – o guardião da floresta” será usado na aceleração da alfabetização, mostrando a importância da literatura escolar para democratizar o acesso às artes plásticas.

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Gravuras e bordados

Por trás da gravura de Marlene, relacionada ao estilo do cordel nordestino, é possível a percepção de uma vida simples e daquilo que nos faz essencialmente brasileiros. Imagens evocam a simplicidade de tradições populares esquecidas, o sentido de amor à terra, com seus seres humanos e animais imaginários.

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A capacidade de reprodução das gravuras democratiza o acesso a um maior número de pessoas, resgatando parte da memória cultural. De todas as artes, a gravura é a que mais se desenvolveu no Brasil e, enquanto no restante do mundo esta técnica praticamente desapareceu, aqui permanece fortemente viva no campo visual e de grandes exposições.

Da mesma forma, o potencial de reprodução das gravuras está presente na representação em bordados inéditos. No caso de Marlene, o trabalho em papel foi sendo transposto para a arte têxtil, fazendo do pano um tipo de tela que traz nova poética para as imagens.

“Na realidade, o bordado é a expressão mais ligada à minha origem pessoal, desde jovens as mulheres aprendiam a bordar e trabalhar à mão, mas logo passei a criar desenhos em pano e linha…”, conta Marlene.

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Apesar da técnica tradicional, cada bordado adquire identidade própria a partir da cor e do desenho. “Trata-se mais de elaborar uma imagem, como na matriz de uma gravura, do que o trabalho de fazer o ponto, que é algo simples”, lembra ela.

A partir da criação, outras pessoas ajudam a artista na costura dos pontos, “mas vou acompanhando tudo pessoalmente, cada peça é única e quando o bordado é muito elaborado, dificilmente se consegue fazer outro igual”.

 

Naif & contemporâneo

A Bienal Naif, promovida pelo Sesc em Piracicaba, chegou a São Paulo em 2017, em exibição no Sesc Belenzinho até o início de julho. Possui nada menos que 185 obras das mais variadas técnicas, muitas delas com elementos da cultura popular. Os bordados de Marlene se encontram entre os cinco homenageados com o Prêmio Incentivo conferido pelo Sesc. Participam desta edição da Bienal mais de 111 artistas do Brasil. (saiba mais: http://zip.net/bgtHSJ)

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E o debate sobre o conceito Naif como relacionado à arte ingênua e instintiva, sem o uso de técnicas formais ou de acesso ao ensino da arte, mais uma vez aprofundou-se por meio de artistas que estão em plena sintonia com seu tempo: obras que se transfiguram a cada dia em linguagem poética e expressão da sensibilidade humana ocupam o espaço juntamente com manifestações contemporâneas.

Como destaca o diretor regional do Sesc SP, Danilo Santos de Miranda, no catálogo de abertura, as expressões alternativas da periferia e do interior do país proliferam e transbordam para o centro, e dali retornam novamente para as margens, em movimentos carregados de hibridismo. As obras vinculadas ao Naif não se encontram em redomas, novos temas e ideias confirmam sua vivacidade, fazendo emergir diálogos potentes com o contemporâneo.

“Em minha arte, a tentativa é manter o compromisso com a simplicidade e as raízes brasileiras, sem buscar voos estratosféricos, o que não implica em ausência de formação ou uso de técnicas complicadas”, ressalta Marlene Crespo.

 

Tristes trópicos

Por fim, o público paulistano também conheceu seu trabalho na exposição “Tristes Trópicos – da Arte Plumária ao Instagram”, que a Galeria Mezanino, em Pinheiros, São Paulo, inaugurou em março deste ano com 38 artistas de diferentes origens. Logo na entrada, a enorme tapeçaria “Os Bichos” de Marlene destaca-se como expressão da arte têxtil contemporânea. A galeria integrou ainda a SP Arte 2017, ampliando o acesso do público à obra.

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Segundo Renato De Cara, diretor e curador da galeria, as gravuras e tapeçarias encantam pela espontaneidade e imaginação, aproximando a mitologia brasileira do mundo moderno.

“A proposta foi colocar diferentes artistas lado a lado e ver que é possível estabelecer um grande diálogo, por exemplo, entre uma pintura contemporânea em acrílico e um pequeno bordado de Marlene Crespo. Nossa intenção foi fazer desaparecer a barreira entre a arte popular e a arte contemporânea”, expressa De Cara.

E os seres e símbolos dessa obra, hoje presente em grandes exposições, parecem ter origem em experiências singelas com a natureza e o ambiente. “Sempre gostei de animais, lembro-me das aranhas e tartarugas de minha infância… aí o processo criativo aconteceu de forma muito espontânea”.

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