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Pai das microorquídeas apresenta raridades da Serra do Mar

Existem no mundo cerca de 30 mil espécies de orquídeas e, entre elas, 5 possuem o nome Kayasima, numa prática comum de batizar as espécies ainda não classificadas com o nome de seu descobridor. Masuji Kayasima também homenageia sua esposa, com o registro da Miltonia spectabilis semi-alba Laura Kayasima, após coletar a planta no litoral paulista onde hoje está a Riviera de São Lourenço. Hoje extinta na região, esta orquídea pode ser vista no sítio do casal, depois de a trazerem de um local que seria queimado.

Segundo o taxonomista americano Karl Luer, Masuji é um dos grandes colecionadores de microorquídeas do mundo, cultivando com carinho e zelo estas raridades da Mata Atlântica e, preservando assim, algumas espécies que já desapareceram na natureza. As orquídeas minúsculas só ocorrem na América Latina e a maior concentração está na Serra do Mar, vizinha à metrópole de São Paulo. Em sua coleção, é possível conhecer em torno de 12 mil plantas no Paraíso das Microorquídeas, em Mogi das Cruzes.

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A história da relação entre Masuji e as orquídeas tem cerca de 60 anos, pois ainda aos 6 anos de idade era ele quem regava as flores que os caiçaras da região coletavam na mata e vinham vender no mercado em que sua família possuía uma banca de verduras. Foi um amigo responsável por criar o orquidário da Ilha Anchieta quem o incentivou a conhecer e estudar as orquídeas e, aos 14 anos ele já possuía mais de 500 vasos. Com 16 anos, já era juiz dos concursos de orquídeas de sua região, berço da comunidade japonesa brasileira.

O amor pela espécie resultou em um raro conhecimento que, segundo o pesquisador, origina-se da habilidade em identificá-las num ambiente complexo. E isto, na realidade, depende de treinar a vista na prática. Trata-se de uma atividade desafiadora, pois há milhares de orquídeas já catalogadas.

“Tudo começou porque andava com caçadores mas não gostava de ir atrás dos animais. Minha caçada era pesquisa de orquídeas. Uma vez, cochilando embaixo de uma árvore olhei para o alto e vi algo pequeno e colorido brilhando… peguei o galho e então que percebi era uma orquídea em miniatura”, revela Masuji.

Naquela época, os orquidófilos valorizavam as espécies maiores, porém ele descobriu o quanto estas plantas eram delicadas, podendo ter o tamanho de um alfinete. Em seu sítio, é possível observar uma microorquídea de 2 milímetros, a menor do mundo já registrada. “Elas sensibilizam para a preservação da Mata Atlântica, pois muitas passam despercebidas, mas quando a admiramos e sentimos seu perfume, aprendemos a amá-las”, diz Felipe de Morais, jovem produtor de espécies frutíferas nativas em Salesópolis e que vem aprendendo mais com o pesquisador.

Felipe de Morais e o casal Kayasima
Felipe de Morais e o casal Kayasima

Apesar disso, o casal Masuji e Laura são mais reconhecidos no exterior, em países como Japão, Alemanha e Ingraterra. Certa vez, em uma de suas andanças, ele descobriu uma orquídea bonita e florida e a levou para o taxionomista Guido Pabst, que logo encaminhou a planta para o herbário de São Paulo e, depois, ao Rio de Janeiro. “Não era conhecida e, em poucos dias, já estava na Inglaterra, foi registrada como Miltonia Kayasimae“.

Assim, ele possui um importante papel na divulgação do valor destas epífetas, tendo sido fundador e presidente por várias gestões da ASSOMOC – Associação dos Orquidófilos de Mogi das Cruzes, e participado de muitas exposições, julgamentos das Orquídeas, palestras, cursos de cultivo, além de receber centenas de turistas e interessados em seu sítio. Orquídeas despertam paixão e, durante a década de 1960, Masuji chegou a testemunhar um colecionador trocar o seu carro por um único vaso de uma espécie rara.

“Mas há um enorme desafio que é estudá-las, pois faltam botânicos interessados no tema”. De fato, o número de taxionomistas de orquídeas no Brasil cabe em uma mão, enquanto há mais de 30 mil destas espécies no mundo e só em nosso país cerca de 4 mil.

Para encerrar, ele declara:

“Todo esse trabalho de pesquisa de orquídeas vivas é solitário, sem patrocínio, custeado pela família e se deve à necessidade que vejo de preservar a flora, principalmente as orquídeas, que venho cultivando desde muito cedo. Hoje, estou com pessoas que me dão oportunidade de realocar espécies nas matas onde foram devastadas, e que serão preservadas. Outrora fiz esse trabalho  mas não fui reconhecido, aliás não foi divulgado e por isso ninguém sabe do que venho realizando, hoje o faço com mais convicção pois tenho parceiros que de alguma forma me apoiam e realizam também a preservação. Espero que deem continuidade ao trabalho de melhorar o meio ambiente que nossos netos e bisnetos irão usufruir”.